sábado, 26 de junho de 2010

Ciranda de Pedra

"Ciranda de Pedra" de Lygia Fagundes Telles (Editorial Presença)

Sinopse:
Na magnífica casa de Natércio, que Virgínia visita semanalmente, há num recanto frondoso do jardim, uma fonte dentro de uma roda formada por cinco anões de pedra. Ela efabula que essas cinco figuras são as suas irmãs, Bruna e Otávia e os amigos Afonso, Letícia e Conrado. Porém, Virgínia sente o peso da rejeição junto dessa família idealizada. Por isso, ao descobrir quem é o seu verdadeiro pai, após a morte trágica de Laura e Daniel, pede a Natércio que a deixe estudar em regime de internato. Voltará quase adulta para finalmente descobrir o que se oculta por detrás do mito familiar que cristalizou na imagem da ciranda dos anões de pedra.

Opinião: 
Fez-me alguma impressão, especialmente ao início, o facto de o livro não estar adaptado ao português de Portugal. Certas palavras e especialmente certas expressões eu estranhava muito. Talvez por isso não tenha desfrutado mais deste pequeno livro.

Adorei a forma como todo o livro é contado e como é notório o crescimento da personagem principal ao longo da narrativa, fazendo-nos entrar na sua lógica e obscurecendo a verdade, da mesma forma que ela vê as coisas.
A Primeira Parte, contada enquanto Virgínia era ainda uma criança e lutava pela atenção de todos, foi muito genuína. Senti-me mesmo como se estivesse no interior da cabeça de uma menina que queria integrar-se, mas que ao mesmo tempo era incapaz de se erguer e tomar uma posição, sempre limitada pelo que acreditava ser o desprezo e incompreensão de todos.
A Segunda Parte, contada já quando Virgínia era uma mulherzinha, depois de ela ter crescido, sozinha e enclausurada por vontade própria, num colégio de freiras, deixa-nos entrar na pele dela, mais uma vez, com uma veracidade tal que não conseguimos entrar na pele das outras personagens. Vemos tudo pelo prisma dela, um prisma limitado pela solidão e ancorado pela raiva.
Isto foi o que mais gostei no livro, pois consegue mesmo retratar a personagem, fazer-nos senti-la, mas ao mesmo tempo não conseguiu, pelo menos na primeira parte, transmitir convenientemente a dor da perda que ela sentiu. Esse foi o primeiro ponto negativo.

Interessante é ver como a autora jogou com as repetições, ou melhor, com as memórias. Virgínia vive no passado, e ainda assim é assaltada pelos fantasmas do presente. Cresceu mas ao mesmo tempo continuou sendo a mesma menina de sempre, com medo de encarar os outros, incapaz de lhes perguntar de frente aquilo que lhe moí o coração, e isso condiciona e ao mesmo tempo exalta toda a narrativa.

O que menos gostei neste livro foi mesmo o fim, pois depois de ela finalmente conseguir mudar-se e ter aquilo que tanto deseja, vira costas a tudo, como uma covarde e volta a ficar sem nada. Não compreendi a lógica do final e deixou-me um gosto muito amargo.
Também não gostei do facto de todos, mas mesmo todos os personagens serem hipócritas e de poucas virtudes terem. Sou a favor de personagens tridimensionais, com virtudes e defeitos, mas não de personagens que apenas conseguimos odiar.

Uma outra coisa muito interessante nesta obra é que ela se torna intemporal. Não há nada na narrativa que condicione esta obra, nada que nos diga em que "tempo" se passou, e isso joga a seu favor.


Em suma, foi uma leitura muito interessante, forte e extremamente emotiva e realista, sob um prisma diferente do que costumo ler. Custou-me a habituar ao Português do Brasil (a editora falhou neste ponto, limitando-se a publicar sem ao menos umas notas de rodapé que auxiliassem em certas expressões) mas no fim já estava comodamente adaptada, só que no início não gostei da leitura por esta mesma razão.
Recomendo.


Capa & Design: 
A capa tem uma textura fantástica e um esquema de cores harmónico, mas não percebo porque cortaram a cabeça à rapariga (não gosto nada quando fazem isso, mais valia cobrirem-lhe a cara com o cabelo), mas por outro lado a imagem adapta-se muito bem pois representa uma parte fulcral da história, com a flor vermelha e o vestido negro.


Nota: Esta leitura foi feita no âmbito tema do mês de Junho do Desafio Literário 2010.  

3 comentários:

  1. Nossa! Adorei a capa! rsrsrsr

    Eu não conhecia esse livro, parece interessante, mas não muito. rsrsr

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  2. Eu preciso ler este livro, tudo que leio sobre ele e' muito bom! Parabens pela escolha ... Beijos

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  3. Oi, Ana!
    Resenha estupenda! A versão televisiva da história é mais conhecida no Brasil do que o próprio livro que a ensejou. Faltou uma tradução que pudesse tornar compreensível expressões do português do Brasil. Chato isso!Em vista da capa brasileira, essa daí está muitíssimo bem.

    Beijocas

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