quarta-feira, 27 de junho de 2012

Os Malaquias

"Os Malaquias", de Andréa del Fuego (Porto Editora)

Sinopse:
Serra Morena. Um raio esturrica o casal, em luz e carne. Os filhos ficam órfãos, com destinos diferentes. Antônio, o menino que não cresce. Nico, o patriarca engolido por um bule de café. Júlia, a menina em fuga permanente. Um lugar onde as sombras da terra e da água convivem. Onde a morte e a vida são o mesmo mundo. Um poema seco à humanidade de cada um de nós.
Uma escrita áspera mas poética, desenhada com a vertigem das memórias da família Malaquias, e que evolui como tributo pessoal da autora aos seus antepassados.
Transcendental e mágico, este romance do insólito revela-se uma leitura para o coração.
Um livro forte, aclamado, invulgar.

Opinião:
Este, posso dizer, é um livro que começa de forma extraordinária, fecha de forma muito simbólica, mas que peca por o seu recheio ser demasiado insubstancial.

Ou melhor, passo a explicar: "Os Malaquias" conta uma história muito curiosa. Uma história com a qual nos podemos identificar, feita de encontros, desencontros, vitórias e falhas. Isto adicionado a uma certa fantasia que me parece muito sul-americano (espécie de superstições), seria sem dúvida a receita para o sucesso. E na verdade é isso que mantém o livro interessante.
Contudo a história é contada de uma tal forma que se torna antagónica, quase superficial. Tudo nos é contado, mas nada nos toca. E de tão condensada, de tão raquítica está, que quase se torna aberrante.

Felizmente a escrita é bela o suficiente para manter o leitor agarrado ao livro. Poética em certos momentos e pensada ao pormenor em todas as linhas, há verdadeiras passagens de raro simbolismo nesta obra. Aliás, todo o livro vive de simbolismos e o leitor pode (e deve) perder-se neles.
O que achei curioso foi que esta leitura me relembrou o "Ciranda de Pedra" pois apesar de as histórias serem bastante diferentes, algo na rusticidade dos acontecimentos ligou os dois livros.

Em termos de personagens e por culpa do já anteriormente exposto, este livro pouco fez para tornar as personagens verdadeiramente marcantes. pessoalmente não estabeleci ligação com nenhuma. Vi potencial em várias, especialmente no António mas nem este foi capaz de gerar em mim grande afinidade. Pois assim como a história estava demasiado lapidada, também as personagens sofreram do mesmo flagelo. Já para não falar que senti que o enredo podia ser divido em duas facções: os ricos e espertos, e os pobres e burros. Acho mesmo que não há nenhuma personagem que escape a isto e isso é lamentável. Ou melhor, lá para o final aparecem duas personagens que ficam ricas mas não por esperteza. No entanto os restantes caem todos neste - permitam-me dizê-lo - estereótipo.

Em suma, este é um livro que tem grade potencial e que me manteve agarrada à leitura, mas que acabou por ser demasiado superficial, demasiado literal e pouco expressivo. Renegando demasiado ao simbolismo e pouco à caracterização.
Ainda assim não se assustem com todos estes senão que aponto, pois no geral foi uma leitura positiva. O início, principalmente, assim como o fim e algumas cenas marcantes pelo meio, valeram pelo resto do livro, mas infelizmente não foi suficiente para fazer desta uma leitura marcante.

Capa (Alex Gozblau), Design e Edição:
Com uma capa esplendorosa e muito demonstrativa do início da trama, este é um livro capaz de chamar a atenção.
Em termos de design há que referir o grafismo com os insectos, aos quais achei imensa graça e que simbolizam muito bem os três protagonistas. Teria sido ainda mais interessante se, no início de cada capítulo, tivessem dado destaque ao insecto do protagonista em destaque nesse mesmo capítulo. Uma sugestão levantada no Clube de Leitura e com a qual concordo plenamente.
Já a nível de edição, convém referir que este livro está editado em Português do Brasil (julgo que nem uma linha tenha sido alterada), mas ao contrário de outros livros este até é muito fácil de ler assim e não me recordo de ter sentido necessidade de notas de rodapé ou outros auxiliares (a diferença cultural acaba sempre por marcar presença).

Os Malaquias - www.wook.pt

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