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segunda-feira, 23 de julho de 2018

Book TAG: 50% - 2018

Encontrei na web uma TAG que me pareceu perfeita para fazer agora, visto que não tenho dado muitas opiniões aqui no blog. Chama-se TAG 50%, e é suposto a meio do ano falarmos dos melhores livros que lemos até então. Não consegui descobrir quem foi o/a inventor/A original desta TAG. Se souberem por favor deixem num comentário para eu poder dar os devidos créditos.

TAG 50%



1. O melhor livro que li até agora


2. A melhor continuação que li até agora


3. Um livro, lançado no primeiro semestre, que ainda não li mas que quero muito ler

https://imaginauta.net/2017/12/15/crazy-equoides/25319959_2312795192280124_915649259_o-copia/#main


4. Lançamento que aguardado com mais entusiasmo no segundo semestre


5. O livro que mais me decepcionou em 2017 (até agora)


6. O livro que mais me surpreendeu (até agora)


7. Novo autor favorito
marjoriemliu.com
(Marjorie M. Liu)


8. Paixoneta mais recente, por um personagem fictício
(nada de paixonetas, mas Ahmann Jardir, de "A Lança do Deserto", foi uma das personagens que mais me cativou, pela sua complexidade emocional)

9. Minha personagem favorita mais recente
(Garou, do manga "One Punch Man" foi a personagem mais interessante que li até agora neste ano)

10. Um livro que me deixou feliz
(Ojisama to Neko)


11. Livro que me fez chorar
(nenhum)


12. Melhor adaptação cinematográfica que vi no primeiro semestre
Baseado no romance de Diane Ackerman.


13. Minha opinião favorita do primeiro semestre
"Quem Teme a Morte", de Nnedi Okarofor.


14. O livro mais bonito que comprei/recebi de presente


15. Livro que preciso ler até o final do ano

sábado, 23 de abril de 2016

Dia Internacional do Livro e dos Direitos do Autor

Não podia deixar passar o Dia Internacional do Livro e dos Direitos do Autor em branco, certo?

Por isso gostaria de vos convidar a divulgar, aqui e nas redes sociais, quais os vossos autores favoritos de sempre e qual o(s) livro(s) que leram este ano que mais gostaram.

E porque além de autora sou também leitora, deixo uma pequena lista de alguns dos meus autores favoritos (sem ordem de preferência): Markus Zusak, Marissa Meyer, Luís Filipe Silva, Edgar Allan Poe, J.K. Rowling, Carina Portugal, Brandon Sanderson, Vitor Frazão, Robin Mckinley, João Barreiros, Manuel Alves.
E o livro que mais gostei de ler este ano foi: "28 Days Later", uma banda desenhada de Micheal Alan Nelson e Declan Shalvey.

E não se esqueçam de respeitar sempre o trabalho do autor, seja ele escritor, fotógrafo, músico, ilustrador, compositor, escultor ou outro "-or".
Ajudem os autores e lembrem-se de, sempre que usam uma foto linda no vosso mural do facebook ou no blog, mencionar que é o autor (ou caso não saibam referir isso mesmo). Os autores do mundo inteiro agradecem!

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Linhas Cruzadas (antologia)

"Linhas Cruzadas", de Gina Sacramento, Agustina Bessa-Luís, Júlia Pinheiro, Laurinda Alves, Luís Filipe Silva, Manuel João Ramos, Maria Manuel Ramos Pinto, Miguel Esteves Cardoso , Miguel Vale de Almeida, Rui Henriques Coimbra, Rui Zink, Sérgio Coimbra, Alice Vieira, Vicente Maria / Maria Vicente, Carlos Quevedo, Daniel Tércio, Francisco d'Orey, Helena de Sacadura Cabral, João Barreiros, Joao Miguel Fernandes Jorge (Portugal Telecom)

Sinopse:
Antologia que reune contos de vários autores portugueses.

Opinião:
Como já devem saber, eu adoro antologias de contos! Permitem-me conhecer novos autores e podem conter pequenas histórias fascinantes. E há, nas antologias, um sentimento de aventura, já que sabemos, há partida, que iremos encontrar contos que adoraremos e outros que odiaremos. Raras são as antologias que são totalmente boas e, até hoje, não encontrei nenhuma que considerasse uma perda total. Há sempre uma quantidade significativa de bons textos.
E com estas ideias em mente, comecei a ler "Linhas Cruzadas" que se auto-intitula de "Uma antologia de contos PT". Pois, é aqui mesmo, neste subtitulo, que se prende a minha maior decepção com este pequeno livro: este não é uma antologia de contos! É uma antologia de textos mas nem todos, e diria mesmo que nem a maioria, são contos. Muitos são crónicas, opiniões ou ensaios.
Eu nunca gostei de crónicas, assim como não sou grande fão de não-ficção, mas, noutras circunstâncias, talvez este pequeno facto nem me tivesse incomodado, só que acontece que no momento em que decidi ler esta antologia eu queria mesmo CONTOS. E foi grande a minha decepção.

Há, como em todas as antologias, excepções. Descobri apenas uma nova autora cujo trabalho pretendo revisitar em breve: Alice Vieira. Mas também revi outros já conhecidos, como João Barreiros, Luís Filipe Silva e Rui Zink (embora este último não me tenha conseguido cativar). Mas, não querendo menosprezar as crónicas/memórias, tenho de dizer que apreciei as de Carlos Quevedo e Maria Manuel Ramos Pinto.
Os melhores, a meu ver, foram mesmo os da Alice Vieira, que me surpreendeu.

No geral esta antologia decepcionou-me e não me marcou na positiva. O facto de alguns autores parecerem forçar-se a escrever sobre os telefones e as comuncações, não ajudou a que todos os textos tivessem qualidade, mas alguns foram bem conseguidos.
Sinceramente, esperava mais mas consegui ler alguns textos muito interessantes, com conceitos promissores.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Lisboa no Ano 2000

"Lisboa no Ano 2000 - Uma antologia assombrosa sobre uma cidade que nunca existiu", organizada por João Barreiros, com contos de A.M.P. Rodriguez, Ana C. Nunes, Carlos Silva, Guilherme Trindade, João Ventura, Joel Puga, Jorge Palinhos , Michael Silva, Pedro Afonso, Pedro G.P. Martins, Pedro Vicente Pedroso, Ricardo Correia, Ricardo Cruz Ortigão, Telmo Marçal.

Sinopse:
Bem-vindos à maior cidade da Europa livre, bem longe do opressivo império germânico. Deslumbrem-se com a mais famosa das jóias do Ocidente! A cidade estende-se a perder de vista. O ar vibra com a melodia incansável da electricidade.
Deixem-se fascinar por este lugar único, onde as luzes nunca se apagam, seja de noite, seja de dia. aqui a energia eléctrica chega a todos os lares providenciada pelas fabulosas Torres Tesla.
Nuvens de zepelins sobem e descem com as carapaças a brilhar ao sol. Monocarris zumbem por todo o lado a incríveis velocidades de mais de cem quilómetros à hora. O ar freme com o estímulo revigorante da electricidade residual. Bem-vindos ao século XX!
Lisboa no Ano 2000 recria uma Lisboa que nunca existiu. Uma Lisboa tal como era imaginada, há cem anos.


Opinião:
Demorei o meu rico tempo a ler a antologia da qual também faz parte um conto meu, mas deixem-me explicar-vos porquê: a antologia é bastante volumosa e eu decidi ler espaçadamente os contos, entre outras leituras. Podia tê-la lido toda de uma vez, mas não quis. E agora finalmente terminei.

Lisboa no Ano 2000 é um reinventar da capital portuguesa, como esta teria sido imaginada pelos autores do final do século XIX (com a monarquia ainda no poder e a electricidade como fonte de energia única). João Barreiros deu as regras e os outros autores exploraram os seus limites.

Fiquei agradavelmente surpreendida com alguns dos contos. Tive a oportunidade de conhecer, pessoalmente, quase todos os escritores (ou mesmo todos, se não estou em erro) e a grande maioria das histórias da antologia estão muito boas. Todas muito imaginativas.
Como em quase todas as antologias, existem uns contos que gosto mais que outros; os meus favoritos foram:  "Dedos", A.M.P. Rodriguez; "Energia  das Almas", João Ventura; "A Rainha", Pedro Vicente Pedroso; "Taxidermia", Guilherme Trindade; "Ex-Machina", Michael Silva; "Chamem-nos Legião", João Barreiros.

Podem ver as opiniões individuais nos posts que fiz para cada um dos contos:
"O Turno da Noite", João Barreiros- opinião (na Bang! 10)
"Venha a Mim o Nosso Reino", Ricardo Correia - opinião
"Os Filhos do Fogo", Jorge Palhinhos - opinião
"Dedos", A.M.P. Rodriguez - opinião
"As Duas Caras de António", Carlos Eduardo Silva - opinião
"Electro-dependência", Ana C. Nunes (o meu conto)
"Nanoamour", Ricardo Cruz Ortigão - opinião
"Energia  das Almas", João Ventura - opinião
"Fuga", Joel Puga - opinião
"Tratado das Paixões Mecânicas", João Barreiros - opinião
"O Obus de Newton", Telmo Marçal - opinião
"Ex-Machina", Michael Silva - opinião
"A Rainha", Pedro Vicente Pedroso - opinião
"Taxidermia", Guilherme Trindade - opinião
"Quem Semeia no Tejo", Pedro G.P. Martins - opinião
"Coincidências", Pedro Afonso - opinião
"Chamem-nos Legião", João Barreiros - opinião

Em suma, Lisboa no Ano 2000 é uma antologia surpreendente, cheia de histórias imaginativas. Uns contos agradaram-me mais que outros, como sempre acontece, mas recomendo vivamente. E, claro que, esta opinião é independente da minha participação na mesma.
Já agora, se leram ou lerem a antologia, agradecia que deixassem comentários a dizer o que acharam dela num todo e também do meu conto. :)

::Conto:: Chamem-nos Legião

"Chamem-nos Legião", João Barreiros (incluído na antologia "Lisboa no Ano 2000")

Opinião:
Das três histórias que o autor escreveu para a antologia esta foi a minha favorita. Como sempre João Barreiros mostra uma grande imaginação e capacidade de enredo.Adorei ambas as tramas e a forma como se interligaram, e também a maneira como ligou este aos outros dois contos seus.
Confesso, contudo, que esperava que o autor conseguisse também ligar as suas histórias um pouco mais às dos outros autores, afinal tudo se passa no mesmo 'universo' e espaço de tempo.
Ainda assim a história está muito bem escrita, com muita acção e momentos brilhantes. Boas persoangens, diálogos fascinantes e um final muito bom. O desfecho perfeito para a antologia.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

::Conto:: Tratado das Paixões Mecânicas

"Tratado das Paixões Mecânicas", João Barreiros (incluído na antologia "Lisboa no Ano 2000")

Opinião:
Possivelmente o primeiro conto do João Barreiros que não me maravilhou.
Adorei o final e, como habitual, a ideia. Mas achei que o conto teve demasiadas descrições desnecessárias, que apenas serviram para confundir o leitor, ao invés de transmitirem uma imagem clara do que se passava. Também não apreciei a extensiva prosa sobre a mecânica e os estrangeirismos que, mais uma vez, não tinham tradução em rodapé.
Ainda assim o final valeu a pena.

sábado, 10 de maio de 2014

::Autor:: João Barreiros

Biografia (via Goodreads):
João Barreiros, licenciado em filosofia e professor do ensino Secundário, nasceu a 31 de Julho de 1952, numa humilde cidade que em breve iria cair na Sombra dos grandes Antigos.
Quando se refez do choque, devorou milhares de títulos em todas as línguas a que conseguiu deitar mão, participou na feitura do Grande Ciclo do Filme de FC de 1984 patrocinado pela Cinemateca Portuguesa e Fundação Gulbenkian, escreveu dois vastos artigos para a Enciclopédia (hoje esgotada e objecto de culto para quem a conseguiu comprar).
Dirigiu duas efémeras colecções para as Editoras Gradiva (Col. Contacto) e Clássica (Col. Limites) que o público português resolveu esquecer (pior para ele), publicou um vasto romance de quase 600 páginas com a discreta ajuda de Luis Filipe Silva (de seu nome "Terrarium"), precedido por uma colectânea de contos que chegou a perturbar algumas almas mais sensíveis (O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias).
Anos mais tarde dedicou-se à história alternativa (A Verdadeira Invasão dos Marcianos) que mereceu edição espanhola e simpáticas criticas no jornal El País.
Em 2006, a editora Livros de Areia dedicou-lhe um chapbook com a publicação de uma das suas novelas “malditas”: "Disney no Céu Entre os Dumbos".


Livros que li do autor:
Brinca Comigo! (conto in Brinca Comigo!) - Opinião
Se Acordar antes de Morrer (conto) - Opinião
Um dia com Júlia na Necrosfera, parte 1 (conto in Dagon 1) - Opinião
A Verdadeira Invasão dos Marcianos - Opinião
O Turno da Noite (conto in Bang 10!) - Opinião
Mais do Mesmo (conto in Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa) - Opinião
Tratado das Paixões Mecânicas (conto in Lisboa no Ano 2000) - Opinião
Chamem-nos Legião (conto in Lisboa no Ano 2000) - opinião
Sincronicidade (conto in Linhas Cruzadas) - Opinião

Livros editados em Português:
2 fábulas tecnocráticas (compilação, 1977)
O caçador de brinquedos e outras histórias, Editorial Caminho (1994)
Terrarium, Editorial Caminho (1996)
Efeitos Secundários, Simetria (1997)
Pecar a Sete, Simetria (1999)
Linhas Cruzadas - Uma Antologia de Contos PT, Portugal Telecom (2000)
Como Era Gostosa a Minha Alienígena!, Ano-Luz (2000)
A verdadeira invasão dos marcianos, Editorial Presença (2004)
Disney no céu entre os Dumbos, Livros de Areia (2006) 
A Sombra Sobre Lisboa, Saída de Emergência (2006)
Contos de Terror do Homem-Peixe, Edições Chimpanzé Intelectual (2007)
A bondade dos estranhos: Projecto Candyman, Edições Chipanzé Intelectual (2008)
Brinca Comigo!, Atelier Escritorio Editora (2009)
Dagon 1 (2009)
Imaginários 2, Editora Draco (2009) 
Se acordar antes de morrer (compilação, 2010)
Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa, Saída de Emergência (2011)
Bang! 13 (2012)
Almanaque Steampunk (2012)
Lisboa no Ano 2000 – Uma Antologia Assombrosa Sobre uma Cidade que Nunca Existiu , Saída de Emergência (2013)
Almanaque Steampunk 2 (2013)
Lusitânia 2 (2013)
O Encantador de Bombas, Smashwords (2015)
O Saque da Lampeduza, Smashwords (2015)
O Coração é um Predador Solitário, Smashwords (2015)

A visitar: Autor na Wikipedia, Goodreads do Autor

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa

"Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa", antologia organizada por Luís Filipe Silva, com contos de: Ludovico Bombarda, Sónia Louro, Fausto Boamorte, Artur de Carvalho, Ana Sofia Casaca, João Barreiros , Ruy de Fialho, Joachim Hunot, João Henriques, A.M.P. Rodriguez, Orlando Moreira, Maxwell Gun, Tiago Rosa (Saída de Emergência)


Sinopse:
Poucos o sabem, mas a literatura de pulp fiction, que marcou toda a cultura popular dos EUA na primeira metade do século XX, também esteve presente em Portugal, e em força.
Houve um tempo em que heróis mascarados corriam as ruas de Lisboa à cata de criminosos; em que navegadores quinhentistas descobriam cidades submersas e tecnologias avançadas; em que espiões nazis conduziam experiências secretas no Alentejo; em que detectives privados esmurrados pela vida se sacrificavam em prol de uma curvilínea dama; em que bárbaros sanguinários combatiam feitiçaria na companhia de amazonas seminuas; em que era preciso salvar os colonos das estações espaciais de nome português; em que seres das profundezas da Terra e do Tempo despertavam do torpor milenário ao largo de Cascais; em que Portugal sofria constantes ataques de inimigos externos ou ameaças cósmicas que prometiam destruí-lo em poucas páginas, antes de voltar tudo à normalidade aquando do último parágrafo.

Opinião:
É impossível começar esta opinião sem referir o trabalho do Luís Filipe Silva. Nota-se um esmero neste trabalho (desculpando, em parte, a demora do seu lançamento). As introduções de cada autor, escrito pelo próprio organizador, estão uma delícia! E por si só já são contos.

"O Segundo Sol" de Ruy de Fialho
Este conto tem força na acção e na narrativa que, estando bem adaptada ao estilo da época, é bastante cativante. As personagens também estão bem definidas, dentro dos possíveis e fiquei até com vontade de ler mais aventuras de Jaguar Cabala.
Gostei particularmente de como usou dos medos que, suponho, afligiam a população nos tempos da 2ª guerra. Um conto que me deu mesmo aquela 'vibe' pulp. Adorei!

"A Expedição dos Mortos, parte 1 e 2" de Joachim Hunot
Diálogos imaturos, pouco aproveitamento do exotismo da Índia, personagens adultas que agiam como crianças mimalhas, enredo sem grande força. Este conto foi uma decepção quase desde a primeira página. Na segunda parte, em termos de descrições, a prosa melhorou, mas os diálogos continuaram imaturos e o desfecho foi bem ... ridículo. Um homem que passou o conto todo amedrontado, a querer voltar para casa, vai tornar-se um agente secreto em aventuras mirabolantes sem mais nem menos? Não me parece!
Uma coisa que gostei foi a acção. Bem conseguida e empolgante. Fora isso o conto foi fraco, muito fraco.

"A Ilha" de João Henriques
Boas descrições das paisagens e um bom ambiente de medo, mas a narrativa é demasiado pormenorizada, contando cada passo do protagonista e é demasiado exaustiva, consequentemente tornando-se, em momentos, cansativa.
Apesar disso gostei deste conto, por criar um ambiente muito próprio, quase claustrofóbico mas também de descoberta. O final veio com ligeireza e isso tornou-o credível.

"Pena de Papagaio" de A.M.P. Rodriguez
Mais um conto de que gostei, embora me pareça que o início destoe um pouco do resto do texto. A loucura do protagonista ressalta das páginas. No entanto as suas motivações continuam um pouco confusas, mesmo após o final e isso poderia carecer de mais algum desenvolvimento.

"O Sentinela e o Mistério da Aldeia dos Pescadores" de Orlando Moreira
Com um bom começo e um bom mistério, este conto surpreendeu em termos de enredo, mas o tom narrativo em certos momentos não foi o melhor, tirando alguma força à acção. Ainda assim foi um conto bem conseguido e dentro do estilo desejado.

"Horror em Sangre de Cristo" de Maxwell Gun
Um western bem conseguido, com personagens sólidas e uma história curiosa. No entanto a descrição de certos acontecimentos do passado poderia ter sido narrada de forma mais interessante e o final podia ser melhorado.

"O Inconsciente" de Tiago Rosa
Um conto que consegue ser arrepiante a ao mesmo tempo sensível. O tom usado pelo autor ajudou a causar impacto, acompanhando eficazmente a crueza da história.

"A Noite do Sexo Fraco" de Ludovico Bombarda
Um conto que estranhei, de início ao fim, não tanto pela história, mas pelo estilo de escrita, que me repeliu um pouco. É uma história facilmente esquecida, sem nada que a torne especial e cuja narração não me envolveu. Ainda assim, a sátira, tão presente, foi algo que me agradou muito.

"Pirata por um Dia" de Sónia Louro
Com um início pouco motivador, com demasiados acontecimentos contados em pouco espaço e uma prosa que nada me cativou, este contou acabou por melhorar significativamente a partir do meio e ficou consistente até antes do final, que esse sim, foi uma pequena desgraça sem interesse. No geral acho que é uma história interessante mas contada de forma desinteressante.

"Valente" de Fausto Boamorte
Apesar de ter, definitivamente, aquele 'ar' pulp, esta história começou relativamente bem, perdeu-se um pouco pelo meio quando, sem mais nem menos, o Valente disse que provara, sem sombra de dúvidas que a rapariga era inocente (como, quando e onde?!?) e depois voltou a erguer-se com alguma destreza numa cena muito intensa. Infelizmente este conto peca por um certo nível de previsibilidade e por umas quantas pontas soltas e outros quantos pormenores caídos do nada que lhe tiraram alguma intensidade. Ainda assim, gostei do final.

"O Amaldiçoado de Ish-tar" de Artur de Carvalho
Não obstante a inspiração (óbvia) no Conan o Bárbaro, este conto conseguiu ser muito cativante. A escrita estava primorosa, com descrições das paisagens, personagens e situações que gostei de ler e que me embrenharam na narrativa. No entanto a previsibilidade da trama e a falta de originalidade em termos de personalidades de algumas das personagens, foi algo que me incomodou e que condicionou a história. Ainda assim foi um dos meus preferidos da antologia.

"Noites Brancas" de Ana Sofia Casaca
Pecando, em momentos, na escrita (havia repetições que não me pareciam propositadas) este foi um conto que não me interessou de sobremaneira no início, mas cujo desenvolvimento me foi puxando e puxando com mais força até que me engoliu. O final, bastante bem construído, apanhou-me de surpresa, embora tivesse gostado que fosse narrado de forma um pouco diferente, ainda assim foi uma boa conclusão para uma trama que soube manter "os nervos à flor da pele".

"Mais do Mesmo" de João Barreiros
Já tendo lido vários trabalhos deste autor, este foi mais um conto que não decepcionou. Uma história que agarra o leitor, cheia de boas personagens e de uma imaginação espectacular.
Só tenho duas coisas a apontar: por vezes os termos técnicos eram demasiados e sem necessidade; e acho que de todos os contos este é o que menos identifico como pulp fiction, pois podia ter sido criado muito mais recentemente.

Em suma, esta é uma antologia muito bem conseguida, apresentada com exímio cuidado e que contem alguns contos bem interessantes e que captam um género um pouco esquecido.
Os meus contos favoritos foram: "O Segundo Sol" de Ruy de Fialho, "O Inconsciente" de Tiago Rosa, "O Amaldiçoado de Ish-tar" de Artur de Carvalho e "Mais do Mesmo" de João Barreiros.


Capa (Andrade Matias), Design e Edição (Luís Filipe Silva):
Parece que finalmente as minhas 'preces' foram escutadas e por uma vez sei quem é o autor da capa e, ainda mais, no trabalho no qual esta se baseia (será este o motivo porque este livro foge à regra e abençoadamente refere o nome do artista da capa? Deviam fazer sempre isto, senhores e senhoras da Saída de Emergência). No entanto isto não desculpa o facto de nenhum dos artistas das ilustrações interiores ter sido creditado, nem sequer os autores das fotos apresentadas).
As ilustrações que por vezes acompanhavam os contos, grande parte das vezes, pouco tinham a ver com as mesmas. Ou seja, tinham algo a ligá-las, mas eram pouco fieis; excepção feita n' "O Amaldiçoado de Ish-tar" e também um pouco no "Mais do Mesmo"
Mas queria também dar os meus parabéns a quem fez o trabalho gráfico do livro que está um autêntico mimo. Uma delícia, verdadeiramente e uma homenagem aos livros e revistas da época pulp.
E não posso terminar sem congratular o trabalho desenvolvido pelo Luís Filpe Silva. Agora compreendo porque esta antologia demorou tanto tempo a sair. E valeu bem a pena. Vê-se a dedicação do organizador pelo tema, pela época e pelos contos. A ideia de fazer o livro parecer uma colectânea do passado foi engraçada e bem conseguida, no entanto não posso deixar de referir que para quem não souber de antemão que algumas das personalidades referidas nas biografias são ficcionais, isto poderá causar equívocos. Uma nota final explicando o que é real e o que é ficcional teria sido de boa índole, não só para o leitor que não conhece a 'polémica' mas para os restantes que, como eu, gostariam de saber ao certo quem viveu mesmo na época e quem foi lá inserido pela (incansável) mente do Luís Filipe Silva.


Links Relacionados: "Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa" na Wook - Site da Editora

Nota: Agradeço à Adeselna Davies (Illusionary Pleasure) por me ter dado oportunidade de ler este livro. Agora vou ter de arranjar uma cópia para mim.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Contos de Terror do Homem-Peixe

"Contos de Terror do Homem-Peixe" , antologia com contos de Baptista-Bastos, João Tordo, João Seixas, Guilherme Trindade Filipe, João Barreiros, António de Macedo, David Soares, Fernando Ribeiro, Rui Zink, Possidónio Cachapa, Pedro Martins, com ilustrações de João Maio Pinto (Edições Chimpanzé Intelectual)

Sinopse:
Esta obra ímpar ( co-editada com o CTLX) pretende, com onze contos de alguns dos maiores escritores portugueses da actualidade, homenagear um género que entre nós tem tido pouca tradição – o “Terror” –, apesar de ter dado azo a alguns dos maiores clássicos da literatura mundial, como sejam os romances “Drácula”, de Bram Stoker, “Frankenstein”, de Mary Shelley, os variadíssimos contos de Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft, ou mesmo os incríveis romances de Stephen King.
O livro foi ainda precedido de um concurso literário inédito em Portugal, tendo os dois premiados, Pedro Martins e Guilherme Trindade Filipe, sido editados com os restantes autores: Baptista- -Bastos, Possidónio Cachapa, Rui Zink, João Tordo, Fernando Ribeiro, António de Macedo, João Barreiros, João Seixas e David Soares.
As fantásticas ilustrações saíram da mão do desenhador João Maio Pinto.

Opinião:
De seguida fica uma pequena opinião relativa a cada um dos contos presentes na antologia. No final deixo também uma opinião mais geral.

"O Retirante" , de Baptista Bastos
Já li alguns contos de terror, mas acho que este foi dos poucos que realmente me deu arrepios. Ou não fosse ele contado de forma tão natural, tão directa, que as ideias do protagonista, quase que parecem as nossas.
A escrita do autor é bastante directa, sem grandes rodeios, mas que embeleza de forma quase brutal uma história tão bizarra (embora não irreal, como seria de desejar). Noutra nota, estranhei o não uso de parágrafos, embora tenha percebido a escolha do autor. Gostei deste conto, apesar da sua brevidade.

"Do Mal o Menos", de Rui Zink
Um estranho poema que faz uso de repetições várias, envolvendo o leitor em palavras sufocantes, quase claustrofóbicas. Apesar de no início ter estranhado, no fim gostei, não pela (a)moralidade do poema, mas sim pela forma com o autor o apresentou e o exprimiu.

"A Vizinhança", de Possidónio Cachapa
Uma história estranha, sobre estranhos que todos conhecemos de uma forma ou de outra. O autor criou um ambiente opressivo que realmente deixa o leitor em ‘pulgas’. Não esperava aquele desfecho e fiquei surpreendida, mas gostei pela sua aparente simplicidade.

"Réptil", de David Soares
Posso desde já dizer que goste mais deste conto do que d' "Um erro do Sol" (antologia Brinca Comigo!). Não só a escrita do autor se mostrou mais cativante como a história manteve consistência ao longo do conto. Só a extrema morbidez de certas cenas me deixou um pouco desconfortável, sendo que o autor decidiu recorrer ao grotesco de forma a chocar. Pessoalmente não gostei disso, mas do resto está um conto curioso.

"O Carrinho de Mão", de Pedro Martins
No início estranhei um pouco a prosa do autor, mas rapidamente me habituei e acabei mesmo por gostar da forma como contou esta história, especialmente porque não estava a contar com aquele final. muito bem arquitectado! Não que fosse inverossímil, mas o autor lançou um engodo ao leitor e depois deu-lhe a volta. Também apreciei a forma quase tranquila com que narrou todo o conto, tão contrastante com a brutalidade descrita.

"Broadmoor", de João Tordo
Embora tenha gostado bastante da narração do autor, achei que a história em si tinha muito pouca força e era bastante previsível. Não houve nenhum momento em que achasse o enredo mais que mediano, o que é uma pena já que a voz narrativa poderia ter sido muito mais bem aproveitada.

"Djinn", de João Seixas
Neste também estranhei o início, muito culpa de o autor recorrer a 'excessos' descritivos, usando por vezes palavras demais (e um pouco fora de contexto) para descrever coisas simples. Ou seja, pareceu que estava a querer dar lirismo a todas as frases, de tal forma que se tornou quase abusivo. Mas o 'quase' aqui também é palavra chave. Talvez por ser um conto e porque a partir de um certo momento o texto se tornou mais corridio, acabou por não ser exagerado.
No entanto acho ainda que o conto se estendeu demasiado. Apesar de ter gostado bastante da história, do conceito e das personagens, achei que foi demasiado extenso para o que narrou. Ainda assim valeu pelo protagonista e pelo próprio Djinn. Além disto gostei também do encadeamento das cenas.

"Tentáculos" de Guilherme Trindade Filipe
Achei esta história muito curiosa e contada de forma compassada, de maneira a manter o interesse do leitor Apesar de por vezes ser cómica, também soube meter medo nos momentos certos e a paranóia do protagonista era quase palpável através do papel.. O único defeito deste conto é o fim, que não me convenceu totalmente. Fora isso está muito bom.

"Dulce Claudina e a Casa Assombrada", de António de Macedo
A história deste conto, para mim é bastante interessante, mas a escrita do autor não lhe faz juz. Na verdade, faz-lhe, em certos momentos, como crítica social, mas noutros, perde-se em pormenores sem importância, que nada trazem à história, criando divagações que depois tiram impacto às cenas de real relevância para o enredo. Ainda assim gostei das personagens e da história central, assim como do horror embutido na narrativa, mas por outro lado achei o final insípido e inconsistente com o restante conto. Dá a sensação de que esta história faz parte de algo maior e que não passa de um membro mutilado, ao qual falta uma parte intrínseca.

"A Antena de Brejnev", de Fernando Ribeiro
Apesar de ter apreciado a decisão narrativa do autor, em criar uma expectativa no leitor, logo nos primeiros parágrafos, senti-me defraudada com o final. Não havia pistas que conduzissem o leitor e dessa forma acabei por ressentir-me com o final que parecia saído do nada. A escrita do autor é bastante interessante e até poética em partes, daí ficar a curiosidade de ler mais alguma coisa do também cantor, mas este conto mostrou-se apenas mediano.

"Se Acordar antes de Morrer", de João Barreiros
Já tinha lido este conto na antologia "Imaginários 2". Podem ler a opinião aqui.


Sendo, a meu ver, os contos mais fortes "O Retirante" e "O Carrinho de mão", esta antologia acaba por ser das melhores colectâneas que li até hoje, mantendo uma coesão bastante boa a nível de qualidade dos contos. Apesar de alguns serem pouco mais que medianos, a verdade é que não há nenhum que possa dizer que é mau. E isso acho que nunca disse de nenhuma antologia.
É também uma boa forma de conhecer a escrita de alguns autores do género fantástico e ler outros estreantes no género do terror. Além disso está acompanhado de belíssimas ilustrações.
Daí que recomende a fãs de horror, ou simples curiosos.

Capa e Ilustrações (João Maio Pinto):
A capa, apesar de muito boa, a meu ver não mostra todo o potencial do artista, que se vê realmente nas ilustrações interiores. Não penso que seja culpa de a ilustração da capa estar a cores (ao contrário das interiores), mas antes porque falta a esta capa o dinamismo e complexidade dos outros trabalhos. Ainda assim, acho que a capa ficou muito boa.
As ilustrações interiores estão absolutamente soberbas. Embora cada uma seja a representação do artista, é impossível não ficar de olhos grudados nos desenhos a tinta-da-china do artista. Além de fiéis às histórias, cada uma conta por si só uma história que o ilustrador pincelou com mestria.


Coordenação, Design e Edição:
Senti, antes de mais, a falta de uma nota introdutória por parte de quem coordenou a antologia. Uma explicação sobre como surgiu o projecto, qual o significado do título (eu, pessoalmente, tenho apenas uma vaga ideia que nem sei se é a correcta) e de como foram escolhidos os contos presentes na mesma. para mim esta é uma falha da antologia que só a enriqueceria, caso existisse.
Tal como referi, a nível de qualidade dos textos, esta é das poucas antologias que consegue ter um nível médio bastante elevado, daí achar que a coordenador e escolha dos textos foi muito boa. Ainda assim, alguns erros ortográficos passaram na revisão, o menor dos quais não será certamente o erro no título do conto do "João Barreiros". Ainda assim não são erros suficientes para denegrir o conjunto de contos incluídos na colectânea.
O design interior está muito bem composto e penso que tenha sido uma decisão propositada, a de colocar as ilustrações num local de cada conto, em que as mesmas acabassem por ser uma espécie de spoiler. Ou seja, em cada conto a ilustração aparecia antes da acção que retratava, criando assim no expectador um 'suspense' acrescido para tentar decifrar exactamente onde aquilo se iria passar.
Noutra nota, achei imensa piada as 'biografias' dos autores, Curiosamente criadas propositadamente para a antologia (ou pelo menos, dão a entender que sim).

Um vídeo promocional do livro, no programa Fuzz:

terça-feira, 19 de julho de 2011

Bang! 10

"Bang!" nº10, revista lançada pela Saída de Emergência e FNAC

Começamos com um editorial a citar Ursula K. LeGuin, que diz que "a boa ficção não se destina a mentes preguiçosas" e Safaa Dibb faz todo o editorial a partir dessa afirmação.
A secção das novidades da colecção Bang! está cheia de surpresas no final, com grandes nomes a serem apontados como apostas para breve (H.P. Lovecraft, Ray Bradbury, Anne Bishop, Harry Turtledove, Dan Simmons, entre outros).
Tal como na revista anterior, também nesta podemos ler pequenas opiniões de bloggers, publicadas nos cantos de algumas páginas (entre essas está uma opinião minha, que já referi aqui).
As críticas literárias inseridas na secção própria da revista estavam, na sua maioria interessantes, embora uma em particular se tenha debruçado demasiado sobre a história do que sobre o estilo e a opinião (felizmente não foi exagerado).

Ilustrador (Andreas Rocha)
Já conhecia o trabalho deste artista há algum tempo, e reconheço-lhe bastante mérito, especialmente a nível de criação de cenários. Creio, no entanto, que os trabalhos mostrados na secção dedicada ao ilustrador, não foram os mais enaltecedores, especialmente estando reduzidos a tamanhos tão pequenos. O tipo de arte que ele cria, merece ser visto em tamanho grande, tal como acontece na capa ou no conto de Philip K. Dick.

Os Livros das Minhas Vidas (Fernando Ribeiro)
Reconheço que antes da saída do mais recente livro deste autor, desconheci-a fora do género musical. Gostei particularmente de como narrou esta crónica sobre os livros das suas vidas (como o próprio diz) e nota-se a paixão que te pelas histórias bem contadas.
Tenho cá em casa uma antologia que tem um conto dele (só o soube ao ler o artigo), e estou curiosa por ler pois gostei do que ele disse neste artigo, e da forma como o disse.

Admiráveis Mundos Novos (Safaa Dib)
Um artigo interessante, que ainda assim pareceu deixar de lado certos nomes que me pareciam merecedores de atenção. Contudo, se esta for uma secção habitual da revista, isto poderá ser facilmente resolvido de futuro.

"O Turno da Noite", de João Barreiros
Estranhei o início deste conto, mas passada primeira parte, vi-me novamente imersa na escrita e prosa deste grande autor português, que conseguiu dar um fôlego extraordinário a algo até bastante 'normal' (dentro da sua anormalidade). Gostei da história e muito especialmente do final, mas devo dizer que a parte introdutória me pareceu dispensável (já que tudo o que nela foi revelada, acabou por ser repetida no resto da narrativa, perdendo-se dessa forma o interesse da parte I.
Gostei muito de ver as ilustrações de Melo Matos, que embora não fossem fiéis aos textos (nem o deveriam ser, pois são anteriores a este), deram uma outra vida ao conto.

História do Breve Cinema de Terror Português (João Monteiro)
Confesso-me um autêntica leiga, no que respeita ao cinema português, e muito particularmente ao (breve) cinema de terror lusófono. Este foi um artigo muito interessante e abrangente, não se restringindo somente às películas, mas também às épocas que as condicionaram e/ou fervilharam.

Era uma vez Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (Pedro Piedade Marques)
Pensava eu que este artigo ia ter a ver com o livro de George Orwell, e afinal ... afinal era outra coisa, talvez igualmente interessante. Achei o artigo curioso, especialmente porque desconhecia por completo, não só o livro, como ainda mais a 'organização'.

"Guia de Viagens Seguras para Negros", de Matt Ruff
Achei este conto muito consciente e focado, com temas anda em voga, e que poderiam (quem sabe se não terão) realmente acontecido, até porque muito do descrito foi verdade, em tempos. No geral gostei muito, tanto da prosa como da história e da personagem principal. A minha dúvida é uma só: o que é que este conto tem de fantástico? (resposta: nada além da menção de obras famosas do género)

O Sonho Americano Desenha-se em Português (João Lameiras)
Um artigo interessante, se bem que posso dizer que já conhecia quase todos os factos retratados, acho que o cronista conseguiu reunir bem a informação e torná-la acessível e construtiva. Espero sinceramente que esta secção de BD se mantenha, e que se debruce ainda mais sobre a BD produzida em Portugal.

"Os Defensores", de Philip K. Dick
Depois de ficar desapontada com "Ubik - Enter 2 Mundos", um livro do mesmo autor, parti para a leitura deste conto com algum receio, mas confesso, fiquei rendida. Realmente nesta curta história o autor construiu um mundo sólido, personagens interessantes, mas mais que tudo, uma trama profunda. Gostei muito da prosa e do desenrolar narrativo, nesta distopia a verter para a utopia. Muito bom!

A Guerra dos Tronos (Safaa Dib)
Tinha receio de ler este artigo e receber spoilers, mas felizmente a Safaa soube conter-se nas informações dadas, de forma a que mesmo quem nunca tenha lido os livros, possa ler o artigo e ficar interessado. No entanto o artigo pouco trouxe de novo, para quem segue com o mínimo de atenção o mundo da fantasia em Portugal, ou mesmo das séries internacionais. Ainda assim, para quem é desconhecedor total, será um artigo a ter em atenção.

Vida Noutros Planetas (Fábio Fernandes)
É bom ler sobre leitores/autores de fora do nosso país, sobre o género da FC&F. O Fábio Fernandes conseguiu sumarizar o que se tem passado no Brasil nos últimos anos, de relevante, mas pareceu-me que ao artigo faltou algo de ... único.

"2BR02B - To Be Or Not To Be". de Kurt Vonnegut
A simples ideia por trás deste conto, daria pano para mangas, mas posso dizer que gostei muito desta interpretação e da forma como as personagens escolheram ver as suas 'vidas'. Fez muito sentido, mas ao mesmo não fez sentido nenhum, pois tudo se baseava no egoísmo. Um conto profundo e intenso, onde a significância da vida é posta me causa.


Távola Redonda (Cristina Alves, Célia M., Rui Baptista, João Seixas)
Uma 'reunião' bastante curiosa de quatro bloggers bastante conhecidos na web. Esta 'conversa' focou pontos de interesse, alguns que por norma não são muito falados, e outros que já estão quase banalizados. Uma rubrica a continuar.

No geral esta foi mais uma revista exemplar, desta vez com uma qualidade ainda maior na ficção (menos não seria de esperar dos nomes envolvidos, embora muitas vezes os novatos surpreendam pela positiva), mas igualmente com vários artigos de não-ficção que se destacam.
Um projecto a seguir.

terça-feira, 10 de maio de 2011

A Verdadeira Invasão dos Marcianos

"A verdadeira Invasão dos Marcianos ", de João Barreiros (Editorial Presença)

Sinopse:
Estamos em 1902, cinco anos depois da Invasão Marciana, que quase destruiu por completo o nosso planeta. Para responder ao assalto, a Europa, Rússia e Estados Unidos esqueceram as divergências ideológicas, étnicas e económicas, e formaram o mais gigantesco complexo militar-industrial da história da humanidade. Missão: ocuparem Marte e mostrarem aos marcianos sobreviventes quanto custa atacar traiçoeiramente a espécie humana. Num dos assaltos, os jornalistas Jules Verne e H. G. Wells, pacifistas por natureza, sonhadores de uma utopia não sabem o que fazer. Ainda por cima naufragaram no hemisfério sul do planeta a milhares de quilómetros do local de poiso do exército terrestre. As perguntas parecem não ter resposta: Que criaturas são essas, os Priiiiik, espécie de avestruzes inteligentes que parecem ter sido escravizadas pelos polvos? Verne e Wells vão tentar em vão resolver o mistério. Infelizmente a resposta só virá cento e cinquenta anos mais tarde. Misto dos géneros ciberpunk e steampunk, este livro revela uma nova faceta de João Barreiros no seu humor mais negro.

Opinião:
Como iniciei a leitura sem imaginar sobre o que seria o livro (nem a sinopse li), fui apanhada um pouco de surpresa quando reconheci certas figuras na narrativa. Talvez por isso mesmo me tivesse custado um pouco a ler os primeiros capítulos, mas assim que me habituei à ideia, a escrita de João Barreiros tornou a surpreender-me. 

H.G. Wells, Jules Verne, Dr. Mureou (personagem de H.G. Wells). Edgar Rice Burroughs, John Carter (criação de Edgar Rice Burroughs), são algumas personagens que nos acompanham durante a primeira parte, embora haja menção de outros nomes igualmente familiares.
A forma como o autor usou destas personagens,e  conseguiu torná-las bastante reais, foi bastante interessante. Não sei até que ponto foi fiel à personalidade dos verdadeiros, mas acredito que sejam bastante fiéis, se é que as personagens imaginárias 'emprestadas' são algum indicativo
Também gostei bastante da personagem de Herbert Goodfellow, que me fascinou ao mesmo tempo que irritou.

A forma como João Barreiros misturou realidade com ficção, surpreendeu-me imenso, e fui apanhada um pouco de surpresa pelo desenvolvimento. Gostei particularmente da forma como escolheu contar a história, pois parece-me que teria perdido muita 'vitalidade' se o fizesse ao contrário.
Pareceu-me no entanto que, apesar de o autor detalhar muito certas 'tecnologias' e aparatos, noutras situações não o fazia, o que deixava um vazio na história. Refiro-me particularmente ao que Herbert Goodfellow fez na viagem para Marte. Sou a favor de deixar certas coisas à imaginação do leitor, mas quando em outras circunstâncias o autor nos descreveu tão pormenorizadamente como as coisas aconteceram, neste caso particular ficou-se muito pelas 'arestas'.

A história em si está muito bem explorada e a escrita do autor volta a surpreender, captando a atenção do leitor e mantendo-o agarrado à narrativa. Embora para mim o paradoxo das viagens temporais seja bastante limitativo, deixei esses meus 'pré-conceitos' de lado desta vez, pois a história não me deixou enveredar por essas dúvidas.

A única coisa que não gostei neste livro, foi o uso dos diálogos em francês. Já o disse muitas vezes, mas detesto quando os autores portugueses (ou não) colocam expressões em línguas estrangeiras nos seus textos, e depois não colocam uma tradução. Nem toda a gente sabe falar outras línguas, e continuo a achar uma falta de respeito pelo leitor. Percebo que as usem, mas depois coloquem a tradução em nota de rodapé. Acho que não é pedir muito, pois não?

Em suma, esta foi a minha primeira leitura de João Barreiros em algo mais longo de que um conto, e devo dizer que fiquei rendida. Certamente este já é um dos meus autores portugueses favoritos. 
Esta é uma excelente obra de ficção científica, que surpreende e que consegue ter personagens muito interessantes. Recomendo!


Capa, Design e Edição:
O João Barreiros, no blog Montag (By their covers) já se manifestou quanto ao que pensa desta capa, e eu concordo com ele, embora não ache a capa muito má (só que prefiro quando respeitam a opinião dos autores, afinal a obra é deles). Está bastante genérica, mas as cores chamam bastante a atenção.
A edição está dentro dos parâmetros normais, sem nada que a destaque, mas num estilo limpo e bem aprumado.
Já quanto ao prefácio, confesso que nunca fui muito fã destas 'introduções' porque, tal como diz o prefaciador, acabam por estragar um pouco a leitura, especialmente quando dizem um pouco de mais (que não é bem o caso deste, mas que ainda assim se aplica).

domingo, 21 de novembro de 2010

Dagon 1

"Dagon" nº1, revista lançada pela Edita-me e Correio do Fantástico

"Dormindo com o inimigo", de Luís Filipe Silva
Depois de já ter lido dois contos do autor (e adorando ambos), as minhas expectativas era altas.
A escrita não decepcionou, cativando desde o primeiro parágrafo. A história estava interessante, embora tivesse potencial para mais algumas explicações, e mesmo para tirar certas dúvidas recorrentes do que o protagonista dizia e pensava.
O final foi bastante surpreendente, mas de certa forma inverossímil, pois custa-me a acreditar que o protagonista, sendo tão observador, não tivesse percebido o que realmente se estava a passar.
Mesmo assim, foi uma leitura maravilhosa com um final inesperado.

Festival de Stiges 2009, por Luís Canau
Um artigo detalhado sobre o festival, com opiniões curtas e directas sobre os filmes exibidos. Gostei bastante de ler este artigo, até porque já vi grande parte dos filmes mencionados, e outros tenho planos para ver.

"A Balada do Executor", de Carla Ribeiro
Um conto que peca nos diálogos, que parecem forçados e mecânicos. Com uma história que até foi razoavelmente bem aproveitada, mas que pela forma como foi contada perdeu muito valor. Ao ser-nos narrada de forma tão monótona, perdeu vigor e interesse. Nenhuma das personagens foi exposta bem o suficiente para nos interessarmos. Em suma, esperava muito mais.

"No Bucks, No Bucks Roger", de Pedro Ventura
Este ensaio (pois não o vejo como um conto) fará com que muitos escritores em Portugal se identifiquem com o texto, que reflecte bem o típico escritor português (eu sou só amadora, mas percebo como as coisas funcionam).
Mas embora me tenha revisto neste pequeno texto, que expõe mais do que critica, achei que a prosa poderia estar mais apurada e interessante. (e também fiquei sem perceber a ligação com o título)

Entrevista com Lavie Tidhar
Uma entrevista que pareceu curta, mas que conseguiu reunir algumas questões interessantes, deixando no ar a curiosidade em ler "Tha Apex Book of World SF".

"Brasereiros", de Nir Yanic
Com uma ginástica narrativa muito interessante, este conto pecou pela falta de descrição e foco demasiado extenso no diálogo sem o amparo de qualquer descrição. A ideia original está interessante e foi bem explorada, até um certo nível, mas perdeu pontos pela ineficácia da transmissão visual.

A Ficção Científica Internacional e Problemas de Identidade, por Larry Nolen
Artigo interessante e que levanta questões que gostaria de ver mais exploradas. A verdade é que também desconheço em grande parte a FC que se faz pelo mundo e gostaria de poder ver como as diferenças culturais se transmitem para histórias do género.

Ilustrações por Miguel Ministro
Já tendo conhecimento do trabalho do artista antes desta publicação, posso dizer que gosto, especialmente pela diversidade estética e de influencias. Adoro as cores que ele usa, embora não possa dizer que gosto de todos os seus trabalhos de igual forma, não lhe retiro mérito. É um excelente artista.

"Não há Etcoeteras", de Nuno Fonseca
Um artigo de opinião sobre um dos grandes nomes da FC em Portugal, que nos dá uma visão sobre o trabalho dos escritor, mas que deixa no ar muitas curiosidades.

"Um dia com Júlia na Necrosfera (parte 1)", de João Barreiros
Tendo já lido dois contos deste escritor, confesso que estava à espera de algo muito bom.
Mas antes de mais tenho de dizer que a escolha de dividir o conto em dois foi muito MÁ. A história perdeu momentum, deixando no leitor um sentimento de "traição" e falha em entregar aquilo que prometeu com tanto afinco no artigo "Não há etcoeras" (acima) e não conseguiu, por cortar o conto em dois. Muito má escolha!
E se a escrita do autor conseguiu novamente cativar-me, a história possivelmente só começará a fazer sentido quando terminar de a ler.
O que prometia ser um grande conto (e possivelmente o será). perdeu toda a força ao ser apresentado por partes.

"Glória Perpétua", de Roberto Mendes
Não compreendo se os incessantes pontos de exclamação eram propositados (imagino que sim), mas continuo sem perceber a sua necessidade e digo apenas que o seu uso abusivo me impediu de concentrar devidamente neste curto texto que pareceu, por vezes, perder-se nos seus próprios meandros.

Posfácio, por Roberto Mendes
O homem que criou a Dagon (e também o Conto Fantástico) fala um pouco da jornada e do conteúdo da revista (que a meu ver se tornou inadequado num posfácio).

Em suma, esta foi uma revista interessante de ler, com artigos bem escolhidos, contos variados (que poderão ou não agradar) e muitas promessas, na sequência o desafio que foi este projecto. Contudo, deixo aqui a nota que o preço foi mais que abusivo (8€).
Quanto ao conto do João Barreiros, aconselho os leitores a esperarem até terem a outra parte, antes de se aventurarem na leitura desta primeira parte, mas o problema é que, depois de dez meses o segundo número da revista ainda não saiu.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Conto Fantástico 1/2

"Conto Fantástico", revista/jornal com contribuições de vários autores (Antagonista Editora)

Sinopse:
Uma publicação que pretende apostar na divulgação da escrita de fantasia e ficção científica em Portugal, escrita por portugueses.

Opinião:
Este jornal, que mais parece uma revista, inclui os números 1 e 2 da publicação.
E depois de a ler de uma ponta à outra, posso dizer que vale bem a pena comprar e que é um projecto a seguir com interesse. De louvar a decisão de dedicá-lo exclusivamente à literatura fantástica portuguesa.
Seguem opiniões separadas de cada artigo/conto:

"Mutação Final", conto de João Rogaciano
Quando falamos em ficção científica, o que vem logo à cabeça da maioria das pessoas é: Viagens espaciais.
Achei que o conto tinha potencial, a história teve uma reviravolta interessante, embora não totalmente inesperada. O problema foi a forma como o conto foi mostrado. A narrativa não era aborrecida, e os pormenores, na sua maioria, não estavam despropositados, mas a sequência de acções estava mal aplicada e não houve lugar para o frenesim que um conto desta natureza poderia gerar no leitor.

"Memórias da Ficção Científica", coluna de Álvaro de Sousa Holstein
Foi bem divertido ler sobre como se faziam fanzines há uns anos atrás (A Nebulosa é mais velha que eu dois meses). E pensava eu que os anos 80 e 90 tinham sido bons anos para a ficção científica, mas parece que nem tanto. Realmente, temos a vida muito facilitada com as novas tecnologias (acho que se elas desaparecessem amanhã, me dava um "treco").

"Thalormis Zeta", conto de Carla Ribeiro
Numa escrita cativante, com pormenores que não aborrecem e numa narrativa que incita o leitor a continuar. este conto conseguiu ser mais que satisfatório, dando-nos um final, mas um final que deixa no ar a ideia de que há mais (não necessariamente noutro conto, mas não dá um fim definitivo, que é sempre bom).

"Space Oddity", conto de Regina Catarino
Curto! Muito curto mesmo, mas ainda assim conseguiu transmitir algo. Não é extremamente original, e sinceramente a menção ao David Bowie pareceu-me algo irrelevante pois duvido que quando as viagens no espaço se tornarem tão comuns as pessoas ainda oiçam David Bowie, mas bem, até isso pode ser perdoado.
A verdade é que este conto funcionou bem, sem no entanto poder ser algo mais que uma leitura agradável.

Entrevista a João Barreiros
Tendo já lido dois contos do autor, posso dizer que gosto do estilo dele. Ao ler esta entrevista, até me senti um pouco mal por não conhecer metade dos nomes mencionados. Mas eu sou apologista de que os "clássicos" não são tudo, o que não quer dizer que não goste de ler de tudo um pouco, porque gosto.
Gostei da entrevista, embora tivesse achado que falou pouco do autor, e muito mais do panorama português no campo da fantasia, e especialmente da ficção científica (que todos sabem estar pela hora da morte).

"Memórias da Ficção Científica", coluna sem autor (não é mencionado no artigo)
Nunca tinha ouvido falar do escritor Romeu de Melo, mas neste artigo ficamos a saber um resumo da vida daquele que é, na voz do colunista, o "pai" da ficção científica em Portugal.
Fiquei com vontade de saber mais sobre o autor, e não vale de muito meter o nome no google, pois segundo o artigo, nada de relevante surge. O esquecimento é muito penoso!

"Cometas Extintos", conto de Pedro Pedroso
Por alguma razão este conto recordou-me um certo jogo que o meu irmão muito adora, mas à parte disso, gostei da prosa (a escrita do autor é bastante boa) e das personagens: soldados que só pensam na missão e que se vêm perdidos sem a tecnologia a que tanto estão habituados.
O final ficou muito bem na história, chegando até a ser algo inesperado no entanto pareceu-me que faltou "algo" à história. Algo mais significativo e cativante. Não é um mau conto, de todo, mas também não conseguiu ficar na memória.

"Aleninan", conto de Marcelina Gama
A história não está nada mal, fazendo lembrar-me as ruelas mais negras das cidades futuristas. Gostei da prosa da autora e os diálogos estavam convincentes, mas aquele final estragou-me a festa toda. É como se cortasse a festa a meio.
Há finais em aberto que me deixam satisfeita, mas este não é um deles. Fica-se com uma sensação de vazio, de "onde está o resto?", que não é bom. Fiquei frustrada!
Outra coisa que não achei lógica foi a acção dos "polícias". Numa situação "normal" eles nunca deixariam a Aleninan ir sozinha.Não faz sentido e pareceu apenas um engendro para que ela ficasse só. Esta parte não convenceu.

Entrevista a Afonso Cruz
Soube a pouco, esta entrevista, mas foi mais focalizada que a anterior e conseguiu falar mais do multi-facetado autor e da sua obra.

Capa e Edição:
Para um "suposto" jornal, isto mais parece uma revista. Com papel de excelente qualidade e encadernação no patamar das boas revistas, justifica-se o preço (3,50€), se bem que  como era um jornal, bem poderiam ter feito no formato comum, que ninguém levaria a mal e ficaria, com certeza, muito mais em conta.
Ainda assim, dou o dinheiro por bem empregue e tenho de dar os meus parabéns ao projecto.

Notas: O "Conto Fantástico" irá ser fundido com a "Dagon", a partir do próximo número. Podem ler tudo aqui.
Vistem o site oficial da revista/jornal Conto Fantástico.

*actualização 2012/01/24
O nº 1/2 do Jornal Conto Fantástica está disponível para download AQUI.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

::Conto:: Se acordar antes de morrer ...

"Se acordar antes de morrer ..." de João Barreiros na antologia "Imaginários 2" (Editora Draco - Brasil)

Sinopse:
O Funcionário desperta, pronto a desempenhar a sua função: Colocar a pele do Pai Natal (São Nicolau) e distribuir amostras grátis dos produtos da CC.

Opinião: 
Mais uma vez o autor conseguiu transportar-me para um dos seus mundos pós-apocalípticos onde o envolvente me sugou numa descrição fantástica do redor, deixando ainda assim muito para a imaginação do leitor, não se tornando por isso cansativa.
Adorei a forma como o Funcionário e as suas acções foram descritas e especialmente a sua naturalidade em querer ajudar os clientes, sem se dar conta que na verdade os estava a condenar (muito realista tendo em conta que falamos de uma máquina apenas programada para uma tarefa e nada mais).
Está certo que muito pouco nos é explicado sobre como o mundo chegou ao estado descrito, mas as pistas são suficientes para satisfazer as necessidades do conto, sem que tenha de haver recurso a (possíveis) esclarecimentos maçadores sobre as duas semanas que antecederam o despertar do Funcionário.
Acho que o único ponto fraco do conto foi mesmo a praga zombie, com a típica "Gah ... miolos", que poderá fazer o delírio de alguns, mas que me pareceu, se bem que compreensível, algo incongruente, mas a ideia dos insectos e demais animais zombies, estava muito interessante e é certamente algo que eu não me importaria de ver mais aprofundado.
Também o último capítulos (de apenas um parágrafo) me pareceu desnecessário, mas não foi isso que estragou o conto.


Sendo este o segundo conto que leio do autor, posso afirmar agora que gosto bastante da escrita do autor e sem dúvida que vou ler mais trabalhos dele.


Curiosidade: Este é o conto que dá nome e inspira a ilustração da colectânea do autor "Se acordar antes de morrer" (podem ver a imagem à direita)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Brinca Comigo!

"Brinca Comigo! (e outras estórias fantásticas com brinquedos)" de João Barreiros, David Soares, João Ventura, Luís Filipe Silva (Escrit'orio Editora)

Sinopse:
Quatro histórias fantásticas com brinquedos, forjadas na imaginação de quatros dos mais conceituados e inventivos escritores do género em Portugal. João Barreiros, David Soares, Luís Filipe Silva e João Ventura, aceitaram o desafio da Escrit’orio e surpreendem-nos com excelentes contos, repletos de originalidade e imaginação, subvertendo completamente o pendor cândido normalmente presente na abordagens clássicas à temática dos brinquedos!

Opinião (por conto):


"Brinca Comigo!", de João Barreiros
O conto que deu nome à antologia, narra a história de uma horda de brinquedos, num mundo dizimado por uma praga, em que as únicas coisas 'vivas', são as electrónicas, que ainda consigam recarregar baterias e substituir peças danificadas.
Este conto foi uma surpresa muito agradável. Denso, simbólico, e muito bem pensado. Nenhum detalhe foi deixado ao acaso e tudo tinha uma ordem, uma intenção e um significado. A lógica vasta, e ao mesmo tempo limitada, da horda, pareceu tão verosímil que nos esquecemos que estamos perante um exército de brinquedos.
E o final foi perfeito!

"Um erro do sol", de David Soares
O conto daquele que é considerado o maior (e possivelmente único) escritor vivo português do horror, narra a história de um homem, dono de uma marca de brinquedos que não tem grande sucesso. Ele descobre, num acaso, um brinquedo cuja tecnologia (ou falta dela) o maravilha. Decidido a encontrar o artesão por trás dessa criação, ele viaja, com a família, para uma pequena ilha deserta, chamada de "Garganta".
Há muitos problemas quando temos expectativas em relação a algo, e, depois de ouvir tantos louvores, tanto alarido em volta do trabalho do David Soares, não pude deixar de as ter.
Para começar, já sabia que seria um conto de terror, suspeita que se confirmou lá para o meio da narrativa, mas foi também exactamente aí que a história caiu na banalidade e previsibilidade.
Se o início era medianamente interessante e  deixava espaço para algo de diferente, a partir do momento em que a família pousou os pés na ilha, tudo se tornou monótono e de um gosto muito discutível. Sem querer dizer de mais, basta afigurar que o final não fez 'clique' e não houve explicação nenhuma para o facto de ela, supostamente, descobrir o que eles eram. Nada no que ela viu, ou ouviu, daria a entender a realidade daqueles seres, e por isso a percepção dela é despropositada. Já para não falar nas "focas", porque afinal ninguém ia notar que todas as pessoas que iam à Garganta, acabavam desaparecidas, certo?
Espero apenas que este seja um trabalho menor do autor., mas como não sou de julgar nenhum autor baseado num pequeno conto, pretendo ler uma das obras mais extensas dele antes de finalizar a minha opinião.

"Boneca", de João Ventura
Este pequeno conto (possivelmente o menos extenso) conta o percurso de uma boneca de voodu, através dos tempos e das gerações.
Sei que num conto, temos de ir directos ao assunto e não andar com rodeios, mas o autor resumiu tanto a trama, a acção e o mundo, que foi impossível sentir o que quer que fosse com este conto. Quando cheguei ao fim, limitei-me a pensar "Huh?!?".
Em primeiro, uma boneca de voodu, tanto quanto sei, não pode ser direccionada "aos tiranos", pois se ela colocou uma mecha de cabelos do rei no interior, então a boneca só poderia ferir o rei. Eu até entenderia se chegasse a matar os descendentes da realeza, mas os outros? Todos os tiranos? Não faz sentido! Senão para quê a mecha de cabelo?
A história foi contada num compasso apressado, desprovido de emoções. A passagem do tempo foi abrupta, a evolução das terras e dos territórios, assim como as civilizações, foram muito mal explicadas e apressadas.
Em suma, este foi um conto que pecou por não ter recheio, nem nada que o redimisse. Talvez se não tentasse fazer tanto e tão pouco, a coisa tivesse saído melhor, mas assim apenas ficou a sensação de que nada ocorreu da forma certa.

"Não é que ignoras o motivo da tua queda mas o que pensas saber", de Luís Filipe Silva
Este conto narra a história de uma criança, do (quase) fim do mundo, e das pequenas e grandes coisas que vão acontecendo à volta dele.
Gostei muito desta pequena história por várias razões. Pelo facto de mostrar, através dos olhos de uma criança, como o mundo reagiu a uma ameaça de extinção, mas mais que tudo, à vida familiar dele, que se começou a desmoronar muito antes dos utara aparecerem no céu.
A felicidade que ele encontrou nas pequenas coisas, mesmo quando o mundo parecia ruir à sua volta, e todas as pessoas que ele conheceu, especialmente o irmão, e que o marcou da mesma forma que ele marcou o irmão. Aqui, o tema dos brinquedos é totalmente secundário, em detrimento do relacionamento de duas famílias, e quase de uma comunidade, que se une num momento de destruição.

Em suma, foi uma antologia que teve coesão de tema, mas não de qualidade narrativa, havendo dois contos que se elevaram acima dos outros (João Barreiros e Luís Filipe Silva).

Capa (Fotografia) de Pedro Vilela

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