quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Ódio

"Ódio (Ódio 1)", de David Moody (Editorial Presença)

Sinopse:
Todos os dias, Danny McCoyne sai de casa para um emprego que apenas tolera por ter de assegurar a sua sobrevivência e a da sua família. Mas em breve este homem vai descobrir o que verdadeiramente significa sobreviver. De um momento para o outro, começam a ocorrer um pouco por toda a parte cenas de violência extrema. Sem que ninguém saiba explicar porquê, qualquer transeunte normal pode tornar-se de repente um assassino impiedoso que ataca aleatoriamente. À medida que esta estranha epidemia vai alastrando, Danny sente-se na obrigação de proteger a família - mas como quando já não pode confiar em ninguém, incluindo em si próprio…?

Opinião:
Quem me conhece, sabe que eu adoro o género do horror. Estranhamente poucos livros li neste género, muito por culpa dos poucos que li não terem sido muito compensadores.
Quando pego num livro de horror espero apanhar sustos e ser surpreendida. Não me importo que tenha violência (desde que não seja extrema), e dependendo da história, esta até é aconselhável, mas claro, uma história de horror que se baseie quase exclusivamente em cenas nojentas, não vai ter grande sucesso comigo. É tudo uma questão de equilíbrio.

Este "Ódio" usou bastante da violência, embora não de forma desproporcional. Infelizmente pouco uso fez do susto e da surpresa, o que fez com que o meu "grau de divertimento" fosse menor.

Dividido por dias da semana, no início de cada "parte" temos a descrição de uma cena de violência extrema que parece não ter explicação para os que a elas assistem. Aos poucos vamos percebendo que os "odiosos" agem por medo pois são assolados por um sentido extremo de auto-preservação, sem distinção entre quem antes era seu amigo ou inimigo. Só poupam aqueles que são como eles. os que mudaram. Todos os outros são uma ameaça e por isso devem ser eliminados, nem que sejam esposos/as, filhos/as, pais, amigos/as.
Esta vertente acabará por nos ser contada na primeira pessoa, e o que poderia ter sido uma viagem elucidativa e potente à mente destes "odiosos" acaba por ser apenas ... algo amena.
Infelizmente não acho que a história, neste ponto, tenha ganho com a perspectiva na primeira pessoa, pois chegamos ao fim do livro sem saber o que se passa na realidade.
Certo é que percebemos o que lhes passa pela cabeça, e isso sim está bem conseguido, mas nada nos é explicado sobre como realmente as coisas chegaram ao ponto em que estão. Temos apenas um político a dizer que "deve ter a ver com a genética e coisa e tal" (é mesmo isso que ele diz. não nestas palavras, mas com o mesmo significado).
Percebo que o autor queira deixar o terreno aberto para os livros seguintes, mas é frustrante para o leitor chegar ao fim do livro a saber pouco mais do que sabia no início.

O que mais gostei nesta narrativa foi a vida quotidiana do Danny. A sua vida profissional, igual à de tantas outras pessoas aborrecidas e descontentes com os seus empregos. A sua vida amorosa, ainda apaixonada mas encurralada pelos três filhos. A vida familiar, sufocada pelos filhos, que ele parece amar tanto quanto, por vezes, parece querer ver-se livre deles. Este sem dúvida foi um ponto alto do livro. Muito real e no qual, acredito, quase todos se poderão rever nem que por um só momento.
Mas também aqui há momentos algo aborrecidos. No início do livro, a exaustiva descrição do local do trabalho e dos seus colegas pareceu-me desnecessária. Uma visão mais curta teria sido suficiente pois nada do que poderia ter surgido lá, chegou a acontecer. Por exemplo, estava a contar que ele e a chefe se metessem numa luta, já que o autor lhe deu tanta importância no texto, mas ela quase deixou de ser mencionada depois das primeiras páginas. Ou seja, perda de tempo narrativo (ou estaria a tentar desviar a atenção do leitor?).

Uma coisa que me fez muita impressão nesta história foi o facto de nem por uma vez alguém ter levantado um dedo para ajudar quem estava a ser atacado. Uma vez!
Gosto de acreditar que a humanidade nunca agiria dessa maneira, mas quem sabe?

Em suma, foi uma leitura interessante, que tinha potencial para muito mais, e que sem dúvida deixa expectativas quanto à continuação, embora possa ser lido como um volume único sem quaisquer problemas. Infelizmente, sem a continuação o mistério dos "odiosos" permanece por desvendar, o que é uma decepção.
Achei que poderia ter recorrido mais ao susto e menos ao gore. A voz na primeira pessoa podia e devia ter sido mais bem aproveitada, de forma a que o leitor realmente conseguisse entrar na pele do narrador, coisa que não aconteceu.
Ainda assim vale a pena, pela ideia, pela forma como é contada e pelas personagens, que são muito "nossas conhecidas". Todos nós conhecemos um Danny, ou mais ainda, somos um Danny. Aqui as pessoas parecem genuínas, o que torna tudo isto ainda mais "real" e consequentemente assustador.

Tradução (Saul Barata):
Antes de mais, pareceu-me que um título mais adequado teria sido "Odiosos" (nome dado aos que começam a agir de forma estranha) e não ódio, pois quanto muito o sentimento mais presente neste livro é o "medo". Mas claro, essa é a minha opinião pessoal.

Não posso dizer que há erros na tradução, porque poucos há (um ou dois, que tenha reparado). O problema é que as palavras escolhidas para os primeiros capítulos não são as melhores. Tive oportunidade de ler o primeiro capítulo em Inglês (língua original) e notei logo a diferença. Mas mesmo antes disso dei por mim a "torcer o nariz" ao texto em português.
Felizmente esta estranheza durou +/- até à página 100, porque a partir dai, ou eu me adaptei à escolha das palavras ou elas começaram a ser mais naturais.
Por isso cheguei ao fim sem voltar a "torcer o nariz" e só acho que a primeira parte precisava de uma nova revisão, pequena, mas que ajudaria muito a deixar o texto fluir.

Edição:
Gostei muito do design interior do livro, embora fizesse uso das "famosas" gotas de sangue, não deixou de fazer "vista" ao livro e à edição. Foi bem escolhido e deu um toque mais único ao volume.
A capa (de David Moody), embora em concordância com a original, não se distingue muito de outras duas que a Presença publicou nos últimos meses e cuja capa é branca com esguichos de sangue a vermelho.
Acho que um pouco mais de individualismo teria feito muito bem a este livro, até porque corre o risco de confundir os leitores dos outros dois livros ("A sociedade de sangue" e "O ano dos desaparecimentos") e induzir em erro sobre uma possível continuação.
Gostei da citação na contracapa: "O inferno são os outros", de Sartre. Uma frase que diz muito, mas se calhar teria sido mais interessante colocar algo que o próprio autor tivesse escrito.

Nota: Recebi este livro num passatempo do Refúgio dos Livros, cortesia da Editorial Presença.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Lançamentos 4

E este post serve única e exclusivamente para informar que, finalmente(!), a Presença vai publicar o segundo livro da Saga "Os Jogos da Fome".
Já pensava que ia ter de ter um livro em português e os outros em inglês. É que foi há mais de 1 anos atrás que publicaram o primeiro volume. 1 ano!
Ainda bem que li em inglês, mas estava à espera disto porque quero fazer a colecção em português, já que tenho o primeiro volume na nossa língua.

Título: "Em Chamas", de Suzanne Collins
Editora: Editorial Presença
Lançamento:
6 de Outubro 2010


Sinopse: «Pela primeira vez na história dos Jogos da Fome dois tributos conseguiram sair da arena com vida. Mas o que para Katniss e Peeta não passou de uma estratégia desesperada para não terem de escolher entre matar ou morrer, para os espectadores de todos os distritos foi um acto de desafio ao poder opressivo do Capitólio. Agora, Katniss e Peeta tornaram-se os rostos de uma rebelião que nunca esteve nos seus planos. E o Capitólio não olhará a meios para se vingar…»


E posso ser sincera? Não gosto nada quando colocam opiniões na capa. A contracapa serve para isso mesmo. Mas fora isso, está fiel à capa original e o título está bem adaptado do original "Catching Fire".

Podem ler as minhas opiniões: Livro 1, Livro 2 e Livro 3.

Compras e Ofertas - Setembro 2010

Já há uns tempos que não mostrava aqui o que compro, talvez porque ao contrário do que advoquei anteriormente, não tenho conseguido deixar de comprar livros.
Este mês esta é foi lista (nem todos estão na foto):
- O Jardim Encantado, de Sarah Addison Alle;
- Jornal Conto Fantástico;
- Frankenstein, de Mary Shelley;
- A Verdadeira Invasão dos Marcianos, de João Barreiros;
- Orbias - O Demónio Branco, de Fábio Ventura;
- Avatar - Destino do Universo, de Frederico Duarte;
- A Coroa de Sangue, de Madalena Santos
- As Tribos do Sul, de Madalena Santos
- Os Doze Reinois, de Madalena Santos

E ainda recebi num passatempo do Refúgio dos Livros, o livro Ódio, de David Moody.

sábado, 25 de setembro de 2010

::Conto:: O Herói

"O Herói" de Dora Gago

Opinião:
Apesar de gostar bastante da prosa da autora, pareceu-me que divagou e o enredo se perdeu. Se tivesse sido ainda mais simplificado, teria ganho no pequeno formato em que foi apresentado. Mas o que menos satisfez foi a cena central, em que tudo o que aconteceu foi perceptível, mas não entusiasta.
Acho que havia lugar para muito mais, em termos de carga emocional.


Nota: Este conto venceu o 2º lugar do Prémio Hernâni Cidade. Podem ler o conto aqui.

::Conto:: O Carrossel

"O Carrossel" de João Rogaciano

Opinião:
No princípio este conto parecia ter um tema, a meio já parecia ser outro, mas somente no final percebemos realmente o seu propósito. Em poucas palavras o autor transmitiu uma imagem, uma ideia, uma mensagem. E não é algo a que fiquemos indiferente, pois eu própria sinto o pequeno planeta azul a tentar gritar por cima do barulho da campainha do carrossel.


Nota: Este conto venceu o 3º lugar do Prémio Hernâni Cidade. Podem ler o conto aqui.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Os Jogos da Fome (trilogia)

(editado em 2011-04-26)
Terminada a leitura da Saga "Os Jogos da Fome", não podia deixar de fazer um balanço final da leitura.

Os Jogos da Fome é uma trilogia distópica, cuja ideia inicial muito faz lembra o Battle Royale (de Koushun Takami). No entanto as semelhanças ficam-se só na premissa, sendo que cedo a saga se destaca, não só pela escrita acessível e crua da autora, como pelas muitas personagens que desfilam pelas páginas.

Em The Hunger Games (Os Jogos da Fome), conhecemos Katniss, uma rapariga que se oferece para os mortais jogos em troca da liberdade da sua irmã. Logo com este acto heróico, Katniss prende o leitor.
Ao longo deste primeiro livro aprendemos a amar Katniss, e graças À escrita da autora, duvidamos de toda a gente, mesmo dos que a ajudam no meio da crueldade dos jogos. O fim chega como um alívio, mas deixa no ar a promessa de muito mais.

Com Catching Fire (Em Chamas), todas as esperanças que tínhamos de um futuro mais risonho, se dispersam aos poucos, e ainda assim uma nova chama de esperança se acende quando a arena é de novo o centro das atenções. Todas as acções têm consequências, e neste livro, tanto Katniss como os seus amigos, irão perceber até que ponto isso é verdade.

Finalizando com Mockingjay, a autora seguiu por um livro mais de guerra e política, onde todos manipulam e poucos dizem a verdade. Terminando com um fio de esperança, acompanhado de muito sofrimento.

Como deixei bastante assente nas minhas opiniões individuais (podem consultar abaixo), adorei o primeiro livro, gostei muito do segundo, mas fiquei bastante insatisfeita com o terceiro e último livro da saga. Ainda assim é uma saga que recomendo sem problemas, pois proporcionou-me leituras muito intensas e interessantes.

À saga completa dou a seguinte classificação: 7/10 (Bom)

Para verem as opiniões individuais, aqui fica a lista:
- The Hunger Games;
- Catching Fire;
- Mockingjay.

Mockingjay

"Mockingjay (Os Jogos da Fome 3)", de Suzanne Collins (ainda não publicado em Portugal)

Sinopse:
Contra todas as expectativas, Katniss Everdeen sobreviveu Os Jogos da Fome duas vezes. Mas agora que ela está fora da sangrenta arena, ela ainda não está a salvo. A Capitol está furiosa. A Capitol quer vingança. E quem é que eles pensam que deve pagar o preço pela rebelião?
Katniss. 
Mas pior do que isso é que o Presidente Snow tornou bem claro que mais ninguém está a salvo. Certamente não a família da Katniss, ou os seus amigos, e muito menos as pessoas do Distrito 12.

Opinião:
Não há palavras para descrever o quão decepcionada fiquei com este livro. Nunca pensei que depois de dois livros que amei, encontrasse um terceiro que me deixou mais que insatisfeita.

O que mais pesou nesta minha "decepção" foi o desenvolvimento das personagens. Não a falta dele, mas o que este implicou:
- A Katniss deixou de ser uma rapariga dura e inteligente, para passar a ser uma marioneta, incompetente, choramingas, que se achava com o peso do mundo nas costas.
- O Gale, bem ... o Gale nem se fala.  Completamente díspar do que tinha conhecido dele nos livros anteriores (que em verdade tinha sido muito pouco). A felicidade de ter um livro em que ele aparecia em todos os capítulos, foi de pouca dura, pois ele mostrou ser um "soldadinho" sem escrúpulos, capaz de uma frieza em combate, que me deixou mal disposta e que não condisse com o que nós conhecíamos dele.
- O Peeta ainda foi o que se manteve mais fiel a si mesmo, pois mesmo depois do tudo pelo que passou, ele manteve-se coerente (se bem que um pouco mais louco).
- Das restantes personagens, só o Finnick e a Primm ficaram na memória, pois os restantes eram tantos mas tantos novos nomes, que eu acabava confundida.

Outro ponto bem negativo foi a escolha da autora em falar constantemente nos sonhos e pesadelos. Que eu me lembre ela nunca foi tão insistente nisto nos livros anteriores, e neste chegou a ser cansativo pois de cada vez que a Katniss dormia, lá íamos nós para uma descrição do sonho que na maioria nem tinha grande significado. Falta de imaginação? Quem sabe ...
Mais outra coisa que me incomodou foi o final da guerra. A autora contou-nos tudo numa monotonia que quase chegou a parecer surreal. Estava a ler, mas era como se não estivesse. Aborreceu-me! Parece que estavam com pressa em despejar informação, de tal forma que não transmitiram emoção nenhuma, mesmo depois da morte tão “emotiva” de uma certa personagem.
Felizmente as cenas entre a Katniss e o Snow foi bem entregue e surpreendente, o que deu alguma dinâmica a um capítulo insípido e sem força.

Uma coisa que até apreciei foi o facto de, de forma ainda mais intensa que nos livros anteriores, Mockingjay fazer-me pensar no poder e influência que a televisão tem sobre as pessoas.A maneira como a autora usou esta verdade durante os três livros, foi muito bem conseguida. Mas em contrapartida, a constante menção das gravações e das roupas e das preparações, etc., chegou a ser irritante.

Outro ponto a favor, foi a perspectiva sobre a guerra e como esta é feia, cruel. Um jogo onde todos usam de todos, em que ninguém é verdadeiramente "bom" e nunca se sabe quem nos vai apunhalar pelas costas. Também o facto de a guerra alterar de forma significativa a maneira como as personagens encaram a vida, foi bem arquitectada, mas no caso da Katniss, foi puro exagero. Ela perdeu-se totalmente enquanto personagem com carisma, como anteriormente tinha mostrado ser.


* Daqui para baixo há spoilers, por isso quem ainda não leu este terceiro e último livro, é aconselhável não prosseguir. *

A Katniss irritou-me bastante neste livro, especialmente no facto de achar que tudo era culpa dela, que toda a gente que morria era por ela. Que nervos! Ela perdeu toda a “força” que a caracterizara nos livros anteriores, tornando-se uma “coitadinha” irritante.
Eu nem consigo acreditar que ela, que estava sempre a queixar-se que todas as mortes da guerra eram todas culpa sua, teria a frieza de matar o Peeta, depois de tudo o que ele fez por ela. Não foi uma, nem duas, mas muitas vezes que ela pensou e quase matou o rapaz e o mais irritante era que ponderava fazê-lo para salvar a própria pele! E depois ainda teve o desplante de dizer ao Peeta que eles se defendiam um ao outro. Pois sim ...

A decisão final da Katniss em relação ao Snow, foi de certa forma surpreendente, mas o que se seguiu foi de certa forma ridículo. Quem ficaria meses e meses enfiado numa cozinha, sem tomar banho, pensando no suicídio mas sem nunca o chegar a fazer? Se ao menos ela tivesse a coragem para se matar, teria sido mais convincente.
E por falar em mortes, quase nem acredito que os três tenham sobrevivido. Pareceu tão ... forçado. (E o pobre do Finnick foi desta para melhor, e a coitada da Primm.)

*Fim dos spoilers. *


Em suma, este livro não me encheu as medidas e só lhe dou os pontos que dou, porque não aborreceu e porque teve uma perspectiva bem fria e realista da guerra, mas enquanto final de uma saga que adorei, falhou em todos os aspectos. Infelizmente não posso dar-lhe o valor que não merece, pois sei que havia lugar para muito mais.
Pareceu-me que este livro foi apressado e não pensado como merecia. Havia tanto potencial!
Já o final foi ... fofo. E acreditem, isso não é um ponto a favor.

Capa (Tim O'Brien):
Não sou uma fã das capas da saga, mas na senda das anteriores, esta consegue sem dúvida ser a melhor. E o azul também ajuda (adoro azul).
Infelizmente, não tem muito a ver com o livro, conseguindo este ser o mais "negro" de todos três. O Azul dá uma sensação de paz e serenidade que este livro, no seu interior, não tem.
Contudo não posso deixar de dizer que as três capas têm uma lógica e significado irrevogáveis, o que resulta numa sequência e consistência excepcionais para a saga.


Assistam abaixo o vídeo em que a autora lê um excerto do primeiro capítulo do livro (quem ainda não leu o "Catching Fire (Livro 2)" é desaconselhado a assistir a este vídeo):

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